Uruaçu, Goiás, 15 de fevereiro de 2021.
O amor nos transforma, nem sempre para o bem
Muitas vezes, as pessoas nos empurram para além dos nossos limites e dizem “você nunca me enganou, sempre soube que você era assim.”
Em Grandes Esperanças, de Charles Dickens, Miss Havisham é uma rica e excêntrica senhora que adota uma menina, Estela, com o intuito de usá-la em uma espécie de experimento social. Esse experimento também é uma forma de Miss Havisham lidar com um trauma, o dia em que fora abandonada no altar.
“O dia do casamento foi marcado, o vestido de noiva foi comprado, a viagem de núpcias foi planejada, as pessoas foram convidadas. O dia chegou, mas o noivo não apareceu” (DICKENS, 2013, p. 146).
Obcecada pelo passado e paralisada naquela cena terrível, como todos os relógios de sua casa, congelados no instante exato em que recebera a carta em que o noivo anunciava a desistência, Miss Havisham encontra uma forma de passar sua história a limpo ao educar a menina Estella para que ela se tornasse incapaz de amar e, mais ainda, capaz de ferir qualquer homem que a amasse.
Parte de seu plano, ela contrata Pip, um menino pobre e órfão, para visitar sua casa a fim de que Estella pudesse praticar suas lições de crueldade para chegar à idade adulta como ela gostaria de ter sido: impiedosa, inexorável, inquebrável.
No entanto, algo que Miss Havisham não poderia prever: Estella se torna uma pessoa dura também contra ela, que de um jeito doente e torto, a amava como uma filha.
É então que acontece o seguinte diálogo:
_ O quê? Você está cansada de mim?
_ Estou apenas um pouco cansada de mim mesma.
Estela desenlaçou o braço, dirigiu-se à base da imensa chaminé, e ali permaneceu, com os olhos baixos, a olhar a lareira.
_ Diga-me a verdade, sua ingrata!…
Irascível, a srta. Havisham bateu com a bengala no chão.
_ … você está cansada de mim!
Estela olhou para ela, na mais perfeita compostura, e olhou de novo para a lareira. Aquela figura graciosa, aquele rosto lindo, exprimiram uma tal indiferença onipotente para o com o fogo selvagem da outra, que quase foram cruéis.
_ Você parece de pedra! – exclamou a srta. Havisham. – Como o seu coração é frio!
_ O quê?…
Estela apoiou-se na base imensa da chaminé, e moveu apenas os olhos, conservando a atitude de indiferença.
_ A senhora me acusa de fria? Logo a senhora?
_ E não é? – foi o revide, arrebatador.
_ A senhora deve saber o que eu sou ou não sou. Eu sou o que a senhora fez de mim. Se todos os méritos são seus, a culpa também é; se todos os sucessos são seus, os fracassos também são. Para resumir, eu sou isso.
_ Olhem só a dama! Olhem só!…
A Srta. Havisham amargurou.
_ … Olhem só a dama, tão áspera, tão ingrata, nesta lareira que a criou. Nesta lareira em que dei a ela meu peito infeliz, ainda a sangrar as punhaladas que recebeu, nesta lareira em que esbanjei a ela tantos anos de ternura!
_ Mas eu não participava deste contrato, porque talvez nem soubesse andar ou falar quando ele foi acertado. Mas… e a senhora? O que a senhora oferecia? A senhora tem sido muito generosa comigo, e eu devo tudo à senhora… mas, o que a senhora oferecia?
_ Amor – a outra retrucou.
_ A senhora ficou com todo ele.
_ Não é verdade.
_ Minha mãe adotiva…
Sem perder a graça leve do porte, sem erguer a voz, como a outra fazia, Estela não cedeu à raiva nem à ternura.
_ … Minha mãe adotiva, eu já disse que devo tudo à senhora. Tudo o que possuo é seu, de livre e espontânea vontade. Tudo o que a senhora me deu, basta que a senhora ordene, e terá de volta. Além disso, não tenho nada. Mas se a senhora me pede para dar-lhe o que jamais me deu, meu dever e gratidão não conseguirão realizar impossibilidades.
(Clássicos Abril Coleções, 2010. Tradução de José Eduardo Ribeiro Moretzsohn. páginas 403 a 405.)
Aquilo que Estella se tornou, por essa educação para a indiferença recebida desde a infância, com todo o peso que a empurrava constantemente para além de sua própria natureza até perder qualquer traço de doçura, agora era lançado contra ela por quem justamente a havia ensinado a ser daquela forma. Miss Havisham, assim como muitas pessoas, não suportou lidar com a consequência de seus próprios atos na relação com sua filha. Aquilo que colocamos em uma relação nunca será impune. O que a pessoa se torna a partir do que fazemos pode nos ferir e, por fim, matar qualquer vestígio do amor que um dia possa ter existido.